Calcanhar de Aquiles

- E aí? Conseguiu?
- Há tempos deixei de dar respostas objetivas que logo me contradizem. Especular é mais fácil. Suponho eu que no momento está sarado.
- Como pode alguém conhecer-se tão pouco, meu Deus? Faça-me o favor de explicar o porquê de ”no momento”.
- Se eu me conhecesse não estaria agora tendo tal conversa contigo. E o resto é tudo muito simples, é que sara e sangra, sara e sangra. Agora, como eu disse, não está sangrando.
- Não seja tão rude, menina. Mas entendo o que te passa. É sempre assim, sempre no mesmo lugar?
- E poderia ser em outro? Este é o meu Calcanhar de Aquiles, mas ao invés de se localizar nos membros, está no tronco. Bem lá, no coração.
- E como você consegue viver assim, sarando e sangrando?
- Fazendo uso do meu otimismo desregrado que tu odeias, eu te digo que seria bem pior se nunca tivesse chegado a sarar alguma vez. Eu já estaria sem sangue em virtude do tempo que se passou desde que fui atingida. Consola-me a esperança de que não volte a sangrar.
- Cansei de tentar te entender.
- É... Eu também.
[risos]
Você é o que resiste
Ao desespero e à solidão
Nada existe
E o mundo é triste
Sem você

Sem você – Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes


Um comentário:

Alan Félix disse...

Adorei o dialogo. Ser compreendido é quase impossivel. Somos um mundo em constante destruição e renovação. O que fomos ontem, hoje já não existe.