Um não, vários

Estavam lá em mais um diálogo arraigado de medo, euforia e amor. Eram os de sempre, os para sempre. Ele a amava mais que tudo e preocupava-se com suas decisões movidas pela paixão e em sua maioria precipitadas. Ela, por sua vez, o respeitava por isso sendo seguidora de seus conselhos e procurava, consequentemente, não decepcioná-lo. Mas desta vez era diferente, eles não estavam encontrando a harmonia que buscavam para poderem terminar com a discussão que já se arrastava por dias. Nenhum estava disposto a ceder.

- Entendo tudo, meu bem. Eu sei que estou em um caminho muito difícil, aonde as pedras não vão me faltar. Mas já passou por tua cabeça que EU QUERO fazer isto?

- Querida, abandonar um curso às vias de terminá-lo eu compreendo. Conseguiste me convencer com o teu discurso deslumbrado, doce e ingênuo. É isso mesmo, ingênuo. Não adianta lançar-me este olhar. És ingênua e a tua ingenuidade não te permite ver que és. Mas, menina, olhe ao teu redor. Veja! Não tem como fazeres o que pretendes. O teu espírito é delicado, não está pronto para as grosserias a que serás submetida cedo ou tarde. Podes padecer nesta luta sem nunca poder se declarar vencedora, meu amor. Não quero que sofras!

- Oras! Continuamente me vens com esta tua conversa. Eu já disse que não vais dissuadir-me desta vez. Eu vou com ou sem o teu apoio. Mas vai ser muito difícil não poder te ter ao meu lado. Por favor, eu te suplico. Pare com isso! Eu sei que eu estou apta.

- Pare chorar, querida. Estás vendo? Eu te conheço bem. O teu coração é grande por demais e por isso sofres demasiadamente. O peso vai além do que podes suportar.

- Acredite, eu preciso passar por isto. A pessoa que está a receber auxílio é esta acabrunhada em teus braços, não qualquer outra. Por favor! Preciso que me apóies.

- Tu não podes mudar o mundo, menina!

- Eu posso, sim. Veja.

- Mas do que isto se trata?

- É um desenho. Uma das crianças fez para mim. Podes compreender a magnitude de tudo o que se passa comigo? A assistente social me chamou hoje para mostrar-me os desenhos anteriores da mesma autora do desenho lindo e colorido que seguras nas mãos. E sabes como eram? Pois te digo. Eram todos com tinta preta.

- E o que isso tem a ver?

- Foi depois que comecei a freqüentar o abrigo e dar mais carinho e atenção para a pobre infante abandonada nesta terra de gigantes que ela passou a perceber as cores que existem no mundo.

- É uma história linda, meu amor. Mas é apenas uma criança em meio a tantas outras.

- É, é verdade. Eu não posso mudar o mundo. Eu posso mudar vários mundos. Consegui mudar o desta criança e vou mudar o de muitas outras.

Ele calou-se. As palavras o faltavam, seus argumentos estavam esgotados. Comovido com tanto ardor a beijou na testa e segurou a sua mão. Eles estavam juntos outra vez. Ele sabia que ela seria capaz, pois ela mudou o seu mundo quando resolveu ser parte dele.

3 comentários:

Pâmela Marques. disse...

A única coisa que tenho a dizer é: tiro o chapéu, Raquel.
Texto mais delicado e sincero jamais vi. Pura poesia e doçura, tal qual algodão-doce derretendo na boca.

Brilhante.

Joyce Carolini. disse...

Delicado. Feito o teu blog!
Obrigada por teu comentário.

Beijos Raquel!

Charlie B. disse...

" Ele sabia que ela seria capaz, pois ela mudou o seu mundo quando resolveu ser parte. "

Ah, pessoas que mudam nossos mundos são uma maravilha não é? Alguém tem mudado o meu, e sim, eu me sinto recompensado.

Beijo Rachel (sim, em inglês, posso?, rs.)

Charlie B.