Beije-me

Beije-me sob o crepúsculo. 
Leve-me pra fora, no chão iluminado pela lua.
Levante sua mão aberta, faça a banda tocar e faça os vaga-lumes dançarem. 
A lua prateada está brilhando, então me beije.

Naquele dia acordara diferente, mas o dia transcorrera como um dia qualquer, sem grandes acontecimentos ou novidades: lar, trabalho, e, logo mais, aula. Pegou sua mochila, a qual apelidara de casco, pois a via como sua casa itinerante, retirou de dentro dela sua bomba de combustível, popularmente chamada de mp3 para abastecer-se com os harmoniosos sons armazenados no seu potente reservatório de 1Gb! Músicas apaixonadamente selecionadas que com amor eram ouvidas. Colocou os fones nos ouvidos, a pesada casa nas costas e encaminhou-se para a faculdade.

Ainda era cedo e faltava muito para o tulmutuador das suas borboletas chegar, e, como de costume, foi para o campo de futebol. Gostava de ficar nas arquibancadas esperando por seu benquerer enquanto entretinha-se testando o seu inglês ao tentar traduzir as músicas que ouvia. Mas, naquele dia, justamente, o campo estava livre. Não havia ninguém por perto. Ela estava só. Defronte a um gramado sobre os quais já eram para estar projetas as luzes dos refletores, mas não havia sinal de que isso aconteceria. Pois o crepúsculo já estava adiantado e o sol, a julgar pela claridade, já estaria perto de se encobrir totalmente. Estava anoitecendo. Não resistiu ao impulso de olhar o céu mudar de cor e presenciar as estrelas se acenderem em um local tão propício! Correu para o centro do campo e deitou-se feliz da vida jogando a sua mochila para o lado e sentindo-se com uma satisfação gostosa como desde que suas borboletas passaram a voar não conseguia mais sentir.

Olhou para o céu, Sixpiense começara a cantar, a lua lhe sorriu, as estrelas iam lhe surgindo com seus cintilados exuberantes, frenéticos. Começou a sussurrar a letra da música que ouvia, ou pelo menos, as partes que conseguia extrair com o seu parco inglês. E foi tomada pelo forte desejo de que o seu menino estivesse ali ao lado da menina que era dele, mas que ele não sabia que possuía. Fechou os olhos por uns instantes para conter a lágrima e com o coração menos leve em sincronia com a voz em seus ouvidos, disse: "Beije-me".

- Como, menina?

Se ela não acreditava em magia passou a acreditar à medida que suas borboletas alçavam vôo e seu coração tentava sair do peito. Levantou-se rapidamente e deparou-se com um sorriso mais cheio que o da lua e duas estrelas mais lindas e cintilantes que as do firmamento, docemente postas em um rosto lívido de menino-sério a apenas 1,80 m do chão, sobre um corpo magro e firme. Estavam simplesmente ao seu alcance.

Éh!!! Ao alcance de sua mão! Ela poderia tocá-las, e tê-las e... beijá-las. A lua sorridente e as estrelas frenéticas estavam ali bem diante dela, a fitar-lhe nos olhos num entendimento mútuo. E, sem deixar mais um verso passar disparou:

- Beije-me sob o crepúsculo, faça a banda tocar, a lua nos ilumina...

- Uma banda não toca com um só instrumento, meu coração já tamborila cá dentro e precisa de outro para tornar-se música.

- Chega mais perto. Podes ouvir? Bate no mesmo compasso que o teu.

- Música. A nossa música. Aceitas o convite para uma dança?

- Beije-me - lho sorriu.

Dançaram o beijo mais doce de suas vidas ao som de seus corações, sob o brilho das estrelas e a benção alegre da lua.

Ela com o gosto dele na boca, ainda sem acreditar, perguntou-o:

- Isto é mágica? Não era para você estar aqui e ao mesmo tempo era.

- Acredito que possas chamar ‘isto’ desta maneira. Meu amigo chamaria de "caroninha esperta". Eu prefiro chamar de providência divina, pois sempre fui teu sem saber que também eras minha. Estás diferente, me deixaste ler-te. Agora eu sei.

11 comentários:

Pâmela Marques disse...

Que doce, Raquel.
Estou sem palavras para descrever como me senti lendo teu texto. Queria ter vivido uma cena assim. Fato.

Se a vida fosse assim como a gente escreve: poesia. Tudo seria tão fácil.

Ai ai.

Demais teu texto.

Fernanda disse...

Faço minhas s palavras da Pam.
Queria (quero) essa magia (ou seja lá o que for) na minha vida.

Lindo!

Já postei o meu.

Beijos

Natália Corrêa disse...

Achei um sonho. Um sonho bonito, leve, doce, desses que a gente fecha os olhos com bem força pra não acordar...

Du Monteiro disse...

Bonito. Daqueles bonitos de doer.

Charlie B. disse...

E foi assim que aconteceu, simples assim, apaixonante assim.

Charlie B.

carla l. disse...

Que surpresa mais deliciosa esta, ein? Acho que não poderia ter acontecido de uma forma mais bonita.

Ah, eu também participei da postagem, hihi.

Beijo.

Tiago Fagner disse...

Muito bom, gostei de como aconteceu, de onde aconteceu, do jeito que aconteceu... foi uma tarde todinha em maiúsculo!

Bj Raquel.

Luciana disse...

Que lindo!
Gostei da cena toda, por que me fez pensar em filme e por pouco lembrei-me de mim mesma.

Beijo!!

Maria Fernanda Probst disse...

Ficou tão lindo! Doce, suave, sabe?

Alan Félix disse...

Lindo! Fiquei viajando nas suas palavras me levaram a mundos desconhecidos.

Já postei o meu. Dar uma conferida!

Beijos

Alan Félix disse...

29 de dezembro.

É o que diz minha mãe e a certidão de nascimento.

=D


BeijO!