Menina embaçada

A cada pôr-do-sol vem a sensação que o mundo mudou, o tempo passou. Ou será que fui eu que mudei e passei? É tudo repentino e desfocado. Às vezes sou capaz de me ver na imagem translúcida de momentos encantados por quais atravessei. Como quando, por ocasiões, o avistava repousando, descansado em sua arfante e sonora respiração. Eu sabia que estava incumbida de resgatá-lo de seus sonhos, mas não me adiantava tanto em fazê-lo. Tão logo eu estava ao seu lado, não resistia à tentação de reclinar minha cabeça  sobre o seu vasto abdômen e, lá, permanecia perscrutando suas entranhas em seu vital movimento ins-pi-ra-ex-pi-ra. E, com você, inspirava e expirava, sobre seu macio estômago subia e descia naquela profusão de ruídos que me traziam paz e proteção. Eu estava plena. Eu era plena como só na meninice se é, mas, hoje, passei. Há muito adormeci a minha menina e, às vezes, não sou mais capaz de me ver, embora seja, apenas, ela que você enxerga.



Um comentário:

José Francisco disse...

Adorei a tirinha, lembrou-me um certo cartão que um dia recebi de minha amada filha.
Que bom se pudéssemos fazer backup das nossas meninices, de nossas passagens, sempre que a saudade apertasse viveríamos em um DVD aqueles rarissimos momentos, talvez corrigiríamos alguns predicados que adquirimos nesse decorrer.
José FRancisco